BRICS abre nova frente para infraestrutura: onde estão as oportunidades para o Brasil

Exterior | Cúpula realizada em Nova Délhi reforça financiamento de projetos, PPPs, transportes, energia, cidades, infraestrutura digital e industrialização. Declarações de Narendra Modi, Xi Jinping, Vladimir Putin e Mauro Vieira indicam intenção de tornar a cooperação económica do bloco mais concreta.

A 18ª Cúpula do BRICS, realizada em 12 e 13 de setembro de 2026, em Nova Délhi, colocou infraestrutura, financiamento ao desenvolvimento, logística, energia, tecnologia e industrialização entre os principais instrumentos para ampliar a integração econômica dos países que integram o bloco.

Para o Brasil, as decisões merecem atenção especial porque coincidem com uma extensa carteira de concessões, PPPs e investimentos em transportes, saneamento, energia e infraestrutura digital.

A questão central, a partir de agora, será saber quanto dessa aproximação política poderá transformar-se efetivamente em financiamento, novos investimentos e contratos para empresas de engenharia, construção e fornecimento de equipamentos.

A própria Declaração de Nova Délhi mostra uma tentativa de avançar nessa direção. O documento formaliza discussões sobre PPPs, mecanismos de redução de riscos, plataformas de investimento, financiamento em moedas locais e mobilização de capital privado.

Modi: BRICS precisa transformar decisões em resultados

Como anfitrião da cúpula e presidente de turno do BRICS em 2026, o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, ocupou posição central nas discussões.

A presidência indiana adotou como tema da cúpula “Building for Resilience, Innovation, Cooperation and Sustainability”, com foco em resiliência, inovação, cooperação e sustentabilidade.

Modi defendeu que, depois de duas décadas de existência, o BRICS precisa avançar da formulação de propostas para a implementação concreta das decisões.

Entre suas propostas esteve a criação de um mecanismo de continuidade e implementação para acompanhar as iniciativas do grupo independentemente da troca anual da presidência.

O primeiro-ministro também afirmou que os países do Sul Global precisam deixar de ser apenas receptores das regras internacionais para se tornarem participantes efetivos de sua formulação — passando, em sua expressão, de “rule-takers” para “rule-shapers”.

A mensagem tem importância econômica direta

Se o BRICS pretende aumentar a influência das economias emergentes, uma das frentes naturais será ampliar sua participação nas decisões sobre financiamento ao desenvolvimento, comércio, infraestrutura, tecnologia e investimentos internacionais.

A Índia também conduziu em 2026 o avanço da Strategy for BRICS Economic Partnership 2030, dando continuidade ao trabalho iniciado durante a presidência brasileira do bloco, em 2025.

Banco do BRICS ganha importância

Um dos instrumentos que poderá transformar essa agenda política em projetos concretos é o New Development Bank — NDB, conhecido como Banco do BRICS.

A instituição é presidida pela ex-presidente do Brasil Dilma Rousseff.

Em sua estratégia para os próximos anos, Dilma vem defendendo um banco maior, mais digital, mais inovador e com maior capacidade de mobilizar capital.

Entre as prioridades estão financiamentos em moedas locais, garantias, compartilhamento de riscos, cofinanciamentos e instrumentos voltados à participação do setor privado.

Segundo Dilma, infraestrutura continuará sendo uma das bases da atuação do banco, juntamente com logística, infraestrutura digital, energia, parques industriais, tecnologia e infraestrutura social.

Em agosto, ela afirmou também que o NDB pretende ampliar sua capacidade de ajudar os países associados a preparar projetos bancáveis, inclusive estudos de viabilidade, facilitando posteriormente a entrada de investidores privados.

Para o Brasil, onde parcela significativa dos próximos investimentos deverá ser realizada por concessões e PPPs, essa possibilidade é particularmente relevante.

PPPs e redução de riscos entram formalmente na agenda

Um dos pontos mais importantes da Declaração de Nova Délhi para o setor de infraestrutura é o reconhecimento do trabalho da Task Force on Public-Private Partnerships and Infrastructure.

O grupo produziu um relatório técnico sobre modelos de PPP e mecanismos de de-risking, ou redução dos riscos dos empreendimentos.

O objetivo é aperfeiçoar a distribuição de riscos entre governos, investidores e financiadores e melhorar os ambientes nacionais de PPP.

Também avançaram as discussões sobre uma New Investment Platform, destinada a ampliar a cooperação em investimentos entre os países do grupo.

Para o mercado brasileiro, esses mecanismos podem ter efeitos importantes porque muitos dos grandes projetos de transportes, saneamento e infraestrutura social dependem justamente da capacidade de estruturar garantias e reduzir riscos.

Mauro Vieira: Brasil defende maior protagonismo do BRICS

O Brasil foi representado na cúpula pelo ministro das Relações Exteriores, embaixador Mauro Vieira. O presidente Luís Inácio Lula da Silva não foi à cúpula em razão do momento de eleição no Brasil.

Em seu discurso em Nova Délhi, Vieira afirmou que a atual estrutura de governança internacional vive uma situação de forte crise e defendeu que o BRICS tenha participação ativa na construção de um “multilateralismo renovado e legítimo”.

A posição brasileira está relacionada a uma reivindicação histórica do BRICS: aumentar a influência dos países emergentes nas instituições econômicas e financeiras internacionais.

Para o Brasil, isso pode significar maior espaço para instrumentos de financiamento provenientes do próprio BRICS, além de uma diversificação das fontes internacionais de capital.

Xi Jinping propõe nova industrialização apoiada por IA

O presidente da China, Xi Jinping, apresentou uma das propostas economicamente mais relevantes da cúpula.

Xi defendeu que o BRICS se transforme em protagonista de uma nova fase de desenvolvimento impulsionada pela tecnologia e apresentou a proposta de uma iniciativa de nova industrialização apoiada pela inteligência artificial.

Segundo ele, os países do grupo deveriam ampliar a cooperação em pesquisa, aplicações tecnológicas, cadeias industriais e cadeias de suprimento.

Xi afirmou ainda que a nova transformação tecnológica representada pela IA está modificando rapidamente a estrutura da economia mundial e que os países do BRICS precisam ampliar sua capacidade própria de desenvolvimento.

Para o Brasil, essa agenda pode se relacionar diretamente a investimentos em data centers, parques tecnológicos, semicondutores, automação industrial, energia, redes elétricas, telecomunicações e novas instalações industriais.

Putin defende ampliação dos mecanismos de investimento

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, também defendeu o fortalecimento da vertente econômica do BRICS.

Putin destacou a importância do NDB e manifestou apoio à ampliação dos programas e dos setores atendidos pelo banco.

Em encontro com Dilma Rousseff durante a cúpula, afirmou que a Rússia apoia a participação de um número maior de países nas operações do NDB e a expansão de seus instrumentos para novas áreas econômicas.

O presidente russo também ressaltou propostas relacionadas a novas plataformas de investimento e soluções digitais, capazes de ampliar a atuação financeira do banco.

Em declarações realizadas em Nova Délhi, Putin defendeu que o BRICS evolua para uma cooperação econômica mais prática, incluindo investimentos, infraestrutura, tecnologia e sistemas de pagamentos.

Transportes tornam-se eixo específico de cooperação

A infraestrutura de transportes ganhou posição própria na agenda do BRICS.

A Declaração de Nova Délhi estabelece aprofundamento da cooperação em políticas de transportes, investimentos, tecnologia e capacitação, com o objetivo de desenvolver infraestruturas sustentáveis e resilientes.

Entre as iniciativas aprovadas ou estimuladas estão:

  • BRICS Urban Mobility Hub, voltado à mobilidade urbana;
  • BRICS Logistics Supply-Chain Cooperation Framework, direcionado às cadeias logísticas;
  • e a proposta de uma BRICS Railway Research Network para ampliar a cooperação ferroviária.

Para o Brasil, a agenda possui relação direta com a atual carteira de concessões de rodovias, ferrovias, portos, hidrovias e aeroportos.

Cidades, saneamento e mobilidade

As cidades também ganharam capítulo específico.

O BRICS reafirmou a intenção de colaborar no desenvolvimento de cidades mais sustentáveis e resilientes, abrangendo habitação, abastecimento de água, saneamento, mobilidade urbana, gestão de resíduos e serviços urbanos.

Foi criada ainda a BRICS Urban Research and Knowledge Network, destinada à pesquisa aplicada, intercâmbio de experiências e desenvolvimento de soluções urbanas.

Para o Brasil, essa agenda pode atingir investimentos em saneamento, drenagem, habitação, metrôs, VLTs e BRTs.

Energia pode gerar grandes volumes de investimento

Outro segmento especialmente importante é energia.

O BRICS reconheceu a necessidade de ampliar a segurança e a resiliência das cadeias energéticas e destacou uma matriz diversificada envolvendo fontes renováveis, bioenergia, petróleo e gás, energia nuclear, hidrelétrica, hidrogênio e armazenamento.

Para o Brasil, isso pode representar oportunidades em geração, transmissão, subestações, armazenamento, biocombustíveis e hidrogênio.

A expansão dos data centers e de novas atividades industriais também deverá aumentar significativamente a necessidade de novas infraestruturas energéticas.

Minerais críticos: mais processamento no país produtor

A política de minerais críticos também merece atenção.

O documento final defende cadeias produtivas mais diversificadas e resilientes, mas acrescenta um princípio importante: os países produtores devem buscar agregação de valor e diversificação econômica dentro de seus próprios territórios.

Isso pode ser especialmente relevante para o Brasil em minerais como lítio, níquel, grafite e terras raras.

Em vez da simples exportação da matéria-prima, a orientação favorece investimentos em beneficiamento, processamento e transformação industrial.

Para engenharia e construção, isso pode significar novas plantas, instalações industriais, infraestrutura logística e grandes demandas por energia.

Indústria 4.0 e parques industriais

A declaração também reforçou a Partnership on the New Industrial Revolution — PartNIR, iniciativa destinada à cooperação em inovação e Indústria 4.0.

O documento menciona explicitamente o desenvolvimento de parques industriais, transferência de tecnologia, ampliação da produtividade e fortalecimento das cadeias produtivas.

A combinação dessa agenda com a proposta chinesa de industrialização apoiada por IA pode tornar-se uma das principais vertentes econômicas do BRICS nos próximos anos.

Pagamentos em moedas locais avançam

Os países também continuarão estudando mecanismos para facilitar pagamentos internacionais entre os integrantes do bloco.

O objetivo não é, neste momento, criar uma moeda única do BRICS.

A discussão está centrada na interoperabilidade dos sistemas de pagamentos e na utilização crescente das moedas locais no comércio e nos investimentos.

Em grandes projetos, isso pode facilitar financiamentos ou compras de máquinas e equipamentos provenientes de outros países do bloco, reduzindo em algumas operações a dependência exclusiva do dólar.

10 áreas para monitorar no Brasil

ÁreaO que acompanharPotencial para engenharia e construção
1. Energia e transmissãoGeração, linhas, subestações, armazenamento e smart gridsMuito alto
2. Portos e hidroviasConcessões, terminais, dragagens e corredores logísticosAlto
3. FerroviasNovos corredores, concessões e integração multimodalAlto
4. RodoviasLeilões, ampliações, duplicações e infraestrutura resilienteAlto
5. PPPs e concessõesProjetos apoiados pelo NDB, garantias e mecanismos de de-riskingMuito alto
6. Data centers e telecomunicaçõesData centers, fibra, conectividade e energia dedicadaMuito alto
7. Minerais críticosBeneficiamento, processamento e plantas industriaisMuito alto
8. Mobilidade urbanaMetrôs, VLTs, BRTs e sistemas inteligentesAlto
9. Saneamento, drenagem e cidadesÁgua, esgoto, drenagem, resíduos e resiliência urbanaAlto
10. Novos complexos industriaisIA, Indústria 4.0, parques tecnológicos e novas fábricasMuito alto

Onde estão as oportunidades para o Brasil?

A Cúpula de Nova Délhi não definiu uma relação automática de novas obras brasileiras.

O resultado mais relevante pode ser mais estrutural.

O BRICS está formando gradualmente uma arquitetura capaz de combinar: projetos + financiamento + redução de riscos + investidores + empresas + tecnologia.

O Brasil possui uma grande quantidade de empreendimentos que dependem exatamente dessa combinação.

O NDB, presidido por Dilma Rousseff, poderá assumir papel importante nesse processo ao financiar projetos, desenvolver novos instrumentos de garantia e ajudar governos e empresas a estruturar empreendimentos capazes de atrair capital privado.

Ao mesmo tempo, a Índia de Narendra Modi defende maior implementação prática das decisões; a China de Xi Jinping propõe uma nova industrialização apoiada por inteligência artificial; a Rússia de Vladimir Putin pressiona pela ampliação dos instrumentos de investimento; e o Brasil, representado por Mauro Vieira, procura aumentar o protagonismo dos países emergentes na governança econômica internacional.

O movimento sugere uma mudança importante.

O BRICS procura deixar de ser percebido apenas como um fórum político para tornar-se cada vez mais uma plataforma de financiamento, investimentos, industrialização, tecnologia e desenvolvimento de infraestrutura.

Para empresas brasileiras de engenharia, construção e fornecimento, o próximo passo será identificar quais projetos concretos começarão a surgir dessa nova arquitetura econômica. (Fonte: ConVisãoCNC | Legenda: Imagem meramente ilustrativa gerada por Inteligência Artificial | ChatGPT Plus)

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