O que você ouve e vê num restaurante sofisticado?

Por Regis Gehlen Oliveira | O bom da gente ir a um restaurante sofisticado sozinho, com a visão e a audição aguçadas, é que pode observar as mesas ao redor. Desde que deixemos a compulsão de querer mostrar aos “amigos” das redes sociais que está naquele lugar, naquela hora, com aquele prato, com aquele vinho, com aquela roupa de grife, com aquele visual… Na mesa, com vinho, a natureza humana se desnuda.

Sozinho na minha mesa, estão na frente um casal, tipicamente da alta sociedade carioca e um padre (pastor, bispo ou qualquer denominação religiosa similar), todos ao redor dos 60 anos. A garrafa é de um tinto português de médio preço. Ao lado, duas senhoras, na faixa dos 70, tipicamente classe média alta. Na taça, segundo uma delas, um vinhozinho branco. Atrás, um casal, ele em torno dos 60 e ela dos 40, bebendo um vinhozinho tinto.

A senhora do casal da alta sociedade, ao tomar um gole do seu tinto, com toda a sua fineza, argumenta com o padre como um determinado sujeito poderia viver com a aquela pobreza, com aquela gente. O padre diz que fez um trabalho muito bom para converter ideologias, do espiritismo, da umbanda, dos comunistas, da Rússia e, até, hoje em dia, dos Estados Unidos. Uma das 70onas da mesa ao lado, com a boca mais suja que a Baía da Guanabara, pede para o garçom encher a taça padrão Bordeaux, quando ele tentou colocar apenas os um terço recomendados. E emenda para a outra vários “diga para ele se f*”, referindo-se não ao garçom mas a um desafeto. O casal atrás comenta que ficou estarrecido quando um conhecido foi de bermuda num casamento no Rio de Janeiro.

O padre, concordando com os adjetivos sobre “aquela gente”, toma um pouco mais do seu vinho e diz que “essa nova geração” está muito complicada, que as coisas não são mais como antigamente. A senhora do casal à frente, com seu Cartier radiante no pulso, reafirma a mesma coisa. A senhora da boca da Baía de Guanabara chama o garçom para colocar um pouco mais do vinhozinho branco, diz que a amiga está totalmente errada, e desfere mais uns 30 “manda se f*”. Durante os 30 f*, abre o celular, e brada, para o salão do restaurante todo ouvir, que uma amiga de Paris mandou algo sobre o “f da p” do amigo. O casal atras já comenta há 15 minutos os desdobramentos do conhecido que foi de bermuda. A boca da Baía de Guanabara diz que muitas pessoas não tem educação. O padre agradece muito aquela oportunidade. A boca da Baía de Guanabara pede uma segunda garrafa do vinhozinho branco…

Chega um trio de educados, mãe, filha e genro. Falam baixinho. Na minha mesa, uma bela massa italiana, um tinto também italiano e…

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