Derrota presidencial no Brasil, perda de força parlamentar nos Estados Unidos e em Israel e desgaste de Javier Milei na Argentina alteram perspectivas políticas. Uma comparação de dez anos de crescimento econômico revela trajetórias distintas — e desafios comuns para o investimento e a engenharia.
Os resultados eleitorais recentes em quatro países sinalizam dificuldades para lideranças associadas à extrema-direita. A derrota de Flávio Bolsonaro na eleição presidencial brasileira, a perda do controle republicano do Congresso norte-americano, a ausência de maioria para o bloco de Benjamin Netanyahu em Israel e a baixa aprovação de Javier Milei na Argentina compõem um cenário de desgaste político.
Esses acontecimentos podem modificar prioridades econômicas, relações internacionais e decisões de investimento. Entretanto, não significam necessariamente uma mudança uniforme nos rumos das quatro economias. Tampouco permitem atribuir diretamente crescimento ou recessão de cada país à orientação política de seus governantes.
No Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva foi reeleito com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro. Nos Estados Unidos, os resultados das eleições legislativas de novembro indicam perda do controle republicano das duas Casas do Congresso, com efeitos institucionais a partir de janeiro de 2027. Em Israel, o bloco alinhado a Netanyahu conquistou 53 das 120 cadeiras, abaixo das 61 necessárias para uma maioria. Na Argentina, pesquisa realizada em agosto registrou 35% de aprovação e 59% de desaprovação de Milei. São situações distintas, que exigem interpretações igualmente distintas.
Resumo Esquemático
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O que mostram dez anos de crescimento econômico
A CNC comparou a evolução do PIB real de Brasil, Estados Unidos, Israel e Argentina entre 2015 e 2025, utilizando a série histórica do Banco Mundial, e acrescentou as projeções de 2026 do Fundo Monetário Internacional, publicadas em outubro.
O primeiro gráfico mostra a variação anual do PIB, evidenciando as recessões, recuperações e diferenças de desempenho entre os países.

O segundo gráfico mostra o crescimento acumulado do PIB real, tomando 2015 como ponto de partida, equivalente a 0% para todos os países. A evolução é calculada pela composição das taxas de crescimento entre 2016 e 2025, com prolongamento para 2026 mediante as projeções do FMI.

Nos dois gráficos, o trecho contínuo corresponde aos dados históricos e o tracejado identifica a projeção de 2026. As fontes são Banco Mundial e FMI; e os cálculos e a elaboração foram da CNC.
Até 2025, o crescimento real acumulado desde a base de 2015 alcançou 42,4% em Israel, 27,0% nos Estados Unidos, 15,0% no Brasil e 2,4% na Argentina. Caso se confirmem as projeções para 2026, esses percentuais passarão, respectivamente, a 48,9%, 30,0%, 17,5% e 4,5%.
Os números mostram diferenças expressivas de desempenho, mas não estabelecem uma relação causal entre orientação política e crescimento. As séries incluem mudanças de governo, pandemia, alterações nos preços internacionais, políticas monetárias e, no caso de Israel, efeitos diretos de conflitos militares.
Perspectivas econômicas para 2026
| Indicador | Brasil | EUA | Israel | Argentina |
|---|---|---|---|---|
| Crescimento do PIB em 2025 | 2,3% | 2,2% | 2,9% | 4,4% |
| PIB projetado para 2026 | 2,2% | 2,3% | 4,5% | 2,1% |
| Inflação média projetada para 2026 | 4,4% | 3,6% | 1,8% | 32,5% |
Fonte: Banco Mundial, PIB real de 2025; FMI, World Economic Outlook de outubro de 2026, projeções de PIB e inflação para 2026.
A expectativa de crescimento em todos os quatro países em 2026 não elimina as dificuldades. Para os setores de engenharia e construção, os elementos mais importantes são a disponibilidade e o custo do crédito, a segurança jurídica dos contratos, os investimentos em infraestrutura, a inflação dos insumos e a capacidade dos governos de executar os programas anunciados.
Brasil: continuidade política, mas crescimento moderado da construção
A reeleição de Lula indica continuidade de programas como o Novo PAC e das políticas de habitação e infraestrutura. Essa estabilidade pode reduzir a incerteza sobre os projetos em andamento, embora a realização dos investimentos continue condicionada a financiamento, licenciamento, projetos executivos e capacidade de contratação.
Segundo o IBGE, o PIB da construção brasileira cresceu 0,5% em 2025. O resultado foi bastante inferior aos 2,3% de expansão do PIB total, demonstrando que a recuperação da economia não se distribuiu de maneira uniforme entre os setores. Para 2026, as projeções apontam crescimento ainda modesto da construção. A Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) estima expansão de 1,2%; a Confederação Nacional da Indústria (CNI), de 1,5%; e avaliação do FGV Ibre divulgada pelo SindusCon-SP prevê avanço superior a 0,5% e inferior a 1%. No primeiro semestre, o setor apresentou crescimento de 1,1% na comparação com igual período de 2025, segundo a CBIC.
Há, por outro lado, sinais de avanço na infraestrutura. Nos oito primeiros meses de 2026, o segmento gerou 79.065 empregos formais, conforme levantamento da CBIC. A construção reunia aproximadamente 3,15 milhões de trabalhadores com carteira assinada em agosto. O setor também enfrenta pressão de custos: o CUB acumula alta de 6,35% em doze meses, acima da inflação ao consumidor no período.
A principal consequência econômica da eleição presidencial brasileira, portanto, não é uma mudança imediata no volume de obras, mas a definição das prioridades de governo para os próximos quatro anos. A continuidade dos programas reduz parte da incerteza política; a taxa de juros e a capacidade de investimento determinarão quanto efetivamente poderá ser contratado e executado.
Estados Unidos: limites ao poder de Trump e pressão sobre os custos das obras
A perda do controle republicano do Congresso reduz a capacidade de Donald Trump de aprovar novas medidas dependentes de maioria legislativa. Não elimina, entretanto, instrumentos do Executivo, nem significa reversão automática das políticas comerciais e regulatórias em vigor.
Para a engenharia e a construção, o principal ponto de atenção está no custo dos insumos. Tarifas e restrições comerciais podem encarecer aço, alumínio, cobre, equipamentos elétricos e componentes importados. A Associated General Contractors of America apontou aumento de 11,9% nos custos dos insumos de novas construções não residenciais entre setembro de 2025 e setembro de 2026.
Apesar da expectativa de crescimento de 2,3% do PIB norte-americano em 2026, a inflação média projetada em 3,6% mantém a política monetária e as condições de financiamento entre os fatores decisivos para grandes empreendimentos.
Uma eventual moderação das disputas comerciais pode favorecer cadeias internacionais de suprimentos. Para empresas brasileiras, isso teria efeitos sobre importações de equipamentos, exportação de materiais e investimentos industriais de grupos multinacionais.
Israel: crescimento econômico não elimina a incerteza política
A ausência de maioria parlamentar para o bloco de Netanyahu amplia a necessidade de negociações políticas. Isso não implica, por si só, sua substituição imediata no governo. O impacto econômico dependerá da formação de uma coalizão, da estabilidade institucional e, sobretudo, da evolução dos conflitos na região.
O FMI projeta expansão de 4,5% do PIB israelense em 2026. O Banco de Israel apresenta previsão mais elevada, de 5,6%, mas observa que o crescimento seria de 3,4% quando excluída a produção realizada no exterior por empresas israelenses.
Essa distinção é importante para a engenharia. O crescimento contábil do PIB nem sempre corresponde a novas instalações industriais, edifícios ou obras de infraestrutura dentro do país. A autoridade monetária projeta, em sua metodologia, aumento de 10,5% na formação de capital fixo, excluídos navios e aeronaves.
Os investimentos em reconstrução, transportes, energia, habitação e segurança podem gerar demanda significativa. Sua efetivação, contudo, dependerá das condições de segurança e da capacidade de mobilizar recursos públicos e privados.
Argentina: o desafio de transformar o ajuste econômico em investimento
A situação argentina apresenta características próprias. Milei enfrenta desgaste de popularidade enquanto tenta consolidar uma política econômica de forte ajuste fiscal e redução do papel direto do Estado.
O crescimento do PIB de 4,4% em 2025 ocorreu depois de uma trajetória marcada por grandes oscilações. Para 2026, o FMI prevê desaceleração para 2,1%, acompanhada de inflação média anual de 32,5%.
A construção reflete as dificuldades da transição. O indicador oficial de atividade do setor (ISAC) caiu 27,4% em 2024 e recuperou 6,3% em 2025. Em agosto de 2026, voltou a registrar retração interanual, de 4,4%.
Para empresas de engenharia, a redução do investimento público direto desloca parte das expectativas para concessões, parcerias e empreendimentos integralmente privados. A viabilidade dessas alternativas, porém, depende de financiamento de longo prazo e proteção contra riscos cambiais, inflacionários e regulatórios.
A deterioração da popularidade presidencial também pode elevar a incerteza quanto à continuidade das reformas. Uma pesquisa de opinião não equivale a uma previsão eleitoral, mas ajuda a dimensionar os riscos políticos percebidos pelos investidores.
O que muda para a engenharia e a construção
O conjunto dos quatro países sugere que o desempenho futuro dos investimentos será determinado menos pela simples alternância entre correntes políticas e mais pela combinação de estabilidade institucional, financiamento e capacidade efetiva de execução.
No Brasil, as principais oportunidades continuam relacionadas a transportes, saneamento, energia, habitação e instalações industriais. Nos Estados Unidos, são especialmente relevantes os custos dos materiais, as políticas comerciais e os grandes investimentos em infraestrutura energética e tecnológica. Em Israel, o potencial de obras está ligado à estabilização regional e à reconstrução. Na Argentina, o desafio central é recuperar os investimentos sem depender exclusivamente do orçamento público.
A perda de força eleitoral de lideranças da extrema-direita é um fato político com possíveis consequências econômicas relevantes. Mas os indicadores de dez anos não autorizam concluir que exista uma relação única e automática entre essa orientação política e o crescimento do PIB.
A conclusão para o setor é mais concreta: governos podem alterar prioridades, regras e fontes de recursos; são a previsibilidade dos contratos, os custos, o financiamento e a qualidade dos projetos que determinam quais investimentos se transformam em obras.
Nota metodológica: os gráficos utilizam o PIB real, e não o PIB nominal. O acumulado tem base 2015 = 0%, enquanto o gráfico anual inclui a variação efetiva do próprio ano de 2015. Os dados de 2026 são projeções do FMI e estão destacados por linhas tracejadas. Os valores históricos e projetados podem ser revisados pelas instituições responsáveis.










