Uma análise das contas da União, da polêmica proposta de um dos economistas do Plano Real para reduzir os juros e do que o orçamento brasileiro revela quando traduzido para a realidade de uma família.
O que aconteceria com uma família que comprometesse parte expressiva de sua renda com dívidas e tivesse pouco dinheiro para melhorar a casa, investir na saúde e educação dos filhos ou preparar o futuro? Essa pergunta ajuda a compreender um dos principais desafios econômicos do Brasil: o peso dos juros e da dívida pública sobre as contas do governo.
Em artigo polêmico publicado em setembro de 2026, antes do primeiro turno das eleições, sob o título “Eu Acuso: uma proposta para eliminar os juros absurdos”, o economista André Lara Resende, um dos formuladores do Plano Real, defende que o país precisa rever a maneira como conduz suas políticas fiscal e monetária. Sua tese central é que o elevado custo dos juros contribui decisivamente para o desequilíbrio das contas públicas, alimentando o crescimento da dívida e dificultando o investimento produtivo. É uma contraposição à Faria Lima e ao Banco Central, que preconizam que os juros só podem baixar se os gastos primários do orçamento da União forem reduzidos para formar superávit fiscal. Para André Lara Resende os juros altos fazem aumentar a cada dia a relação dívida pública e são o grande custo do país.
A proposta provocou um debate que ultrapassa a tradicional discussão entre cortar despesas públicas e aumentar receitas. Afinal, o problema fiscal brasileiro decorre principalmente dos gastos com serviços à população ou do custo de financiar sua dívida?
Para compreender essa questão, a CNC analisou os números da Lei Orçamentária Anual de 2026 e construiu uma analogia: como ficariam as contas de uma família com renda mensal de R$ 10 mil se seus recursos fossem distribuídos de maneira semelhante aos do orçamento federal? A comparação exige um cuidado fundamental: a União não funciona como uma família. O governo emite títulos, refinancia dívidas, arrecada tributos e realiza operações que não têm equivalência direta no orçamento doméstico. Ainda assim, a analogia pode ajudar a visualizar prioridades, restrições e possibilidades de investimento.
Resumo Esquemático
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1. Como o Brasil distribui seu orçamento
A Lei Orçamentária Anual de 2026 prevê aproximadamente R$ 6,34 trilhões nos orçamentos fiscal e da seguridade social da União. Desses recursos, 49,44% correspondem a despesas classificadas como financeiras, enquanto 50,56% estão associados a despesas primárias, que incluem Previdência, saúde, educação, assistência social, pessoal, custeio e investimentos.

Infográfico CNC — distribuição do orçamento federal de 2026. A parcela de investimentos foi destacada de forma ilustrativa dentro das despesas primárias; sua identificação por grupo de natureza de despesa não constitui uma classificação funcional exclusiva.
O gráfico revela três grandes componentes da estrutura orçamentária.
O primeiro é o refinanciamento da dívida pública, responsável por 27,44% do total. Trata-se, principalmente, da substituição de títulos que vencem por novos títulos. Embora apareça entre as despesas orçamentárias, essa operação não equivale a um gasto corrente financiado pela arrecadação de impostos.
O segundo corresponde ao serviço da dívida interna, com 15,95%, além de outras despesas financeiras, com 6,05%. Essas parcelas incluem operações de naturezas distintas, envolvendo juros, amortizações e outras movimentações financeiras.
O terceiro reúne as despesas primárias, que financiam os serviços públicos, as transferências sociais, a estrutura administrativa e os investimentos federais.
A tabela apresenta os principais componentes destacados no gráfico:
| Despesas da União — LOA 2026 | Participação | Valor aproximado |
|---|---|---|
| Refinanciamento da dívida | 27,44% | R$ 1,741 trilhão |
| Serviço da dívida interna | 15,95% | R$ 1,012 trilhão |
| Outras despesas financeiras | 6,05% | R$ 384 bilhões |
| Total financeiro | 49,44% | R$ 3,137 trilhões |
| Previdência Social | 18,83% | R$ 1,195 trilhão |
| Demais despesas primárias, após destaque ilustrativo dos investimentos | 17,24% | R$ 1,094 trilhão |
| Assistência Social | 4,64% | R$ 294 bilhões |
| Saúde | 3,95% | R$ 251 bilhões |
| Educação | 3,06% | R$ 194 bilhões |
| Trabalho | 1,57% | R$ 100 bilhões |
| Investimentos — destaque ilustrativo | 1,27% | R$ 81 bilhões |
| Total primário | 50,56% | R$ 3,208 trilhões |
| Total do orçamento | 100% | R$ 6,345 trilhões |
Fonte: Ministério do Planejamento e Orçamento, Orçamento Cidadão — LOA 2026. Valores arredondados. O destaque dos investimentos utiliza uma classificação por natureza da despesa, enquanto saúde, educação e outras funções seguem a classificação funcional. Portanto, a retirada ilustrativa dos investimentos de “demais despesas primárias” facilita a visualização, mas não representa uma conciliação contábil entre essas classificações.
O número que precisa ser interpretado com cuidado
À primeira vista, a afirmação de que quase metade do orçamento federal é financeira parece indicar que o país gasta metade de seus recursos apenas com juros. Não é isso que os dados significam. A maior fatia financeira é o refinanciamento: títulos antigos são pagos com recursos captados mediante a emissão de títulos novos. O valor é elevado, mas não representa necessariamente uma redução equivalente do dinheiro disponível para hospitais, escolas ou rodovias.
Para medir efetivamente o custo dos juros, é mais adequado utilizar as estatísticas fiscais do Banco Central. Nos 12 meses encerrados em setembro de 2026, os juros nominais apropriados pelo setor público consolidado somaram aproximadamente R$ 1,205 trilhão, equivalentes a 8,99% do PIB. Esse montante contrasta com um déficit primário proporcionalmente muito menor.
Os números são relevantes porque mostram que o custo financeiro da dívida constitui um componente central do déficit nominal brasileiro. Contudo, abrangem o setor público consolidado e seguem metodologia diferente da LOA federal; por isso, não devem ser confundidos com uma fatia específica do gráfico.
2. E se o Brasil fosse uma família com renda de R$ 10 mil?
Para tornar as proporções compreensíveis, imaginemos uma família que recebe efetivamente R$ 10 mil por mês.

A primeira adaptação necessária consiste em retirar o refinanciamento da dívida da base dos gastos familiares. Isso porque a troca de uma dívida antiga por outra nova não consome, por si só, uma parcela da renda mensal disponível. Na analogia, essa movimentação continuará aparecendo, mas separadamente: seria equivalente à família substituir um financiamento por outro, sem utilizar os R$ 10 mil de sua renda para quitar integralmente o saldo anterior. As demais despesas orçamentárias são então recalculadas para distribuir os R$ 10 mil.
| Equivalência familiar | Valor mensal | O que representa no orçamento federal |
|---|---|---|
| Serviço da dívida | R$ 2.198 | Serviço da dívida interna |
| Outras operações financeiras | R$ 834 | Demais despesas financeiras |
| Total de operações financeiras | R$ 3.032 | 30,32% da renda simulada |
| Previdência e dependentes | R$ 2.595 | Previdência Social |
| Alimentação e gastos da casa | R$ 2.375 | Demais despesas primárias, com destaque ilustrativo dos investimentos |
| Assistência à família | R$ 639 | Assistência Social |
| Despesas médicas | R$ 544 | Saúde |
| Escola | R$ 422 | Educação |
| Gastos para trabalhar | R$ 217 | Trabalho |
| Investimentos e melhorias | R$ 176 | Investimentos federais destacados |
| Total das contas do mês | R$ 6.968 | 69,68% da renda simulada |
| Renda mensal | R$ 10.000 | 100% |
Além dessas contas, a família realizaria uma troca de dívidas antigas por novas equivalente a R$ 3.782. Essa operação é apresentada como informação financeira adicional e não é descontada dos R$ 10 mil.
Os valores não representam hábitos reais de uma família brasileira específica. São uma tradução proporcional de categorias do orçamento federal, com simplificações assumidas para facilitar a compreensão.
Há ainda uma distinção importante: os R$ 2.198 de serviço da dívida e os R$ 834 de outras operações financeiras não podem ser interpretados integralmente como juros ou consumo familiar. Algumas dessas operações envolvem pagamento de principal e movimentações de ativos financeiros.
3. Essa família estaria administrando bem seu dinheiro?
A analogia permite uma reflexão sobre a distribuição dos recursos.
Dívidas: R$ 3.032 mensais
Esse seria o maior ponto de atenção de qualquer planejamento financeiro doméstico.
Se uma família precisasse destinar aproximadamente 30% de sua renda a operações relacionadas a dívidas, teria menos flexibilidade para enfrentar imprevistos, ampliar seu patrimônio ou melhorar sua qualidade de vida. Entretanto, essa equivalência deve ser vista como um indicador de pressão financeira, não como uma medida literal de prestações e juros. No orçamento federal, parte das operações financeiras não corresponde ao pagamento de despesas domésticas.
O fato econômico relevante permanece: o Brasil convive com juros reais elevados, dívida pública expressiva e necessidade constante de financiamento. É precisamente nesse ponto que se concentra o argumento de Lara Resende.
Previdência e dependentes: R$ 2.595
Na comparação doméstica, essa quantia seria destinada ao sustento de dependentes e à proteção previdenciária da família. O comprometimento de aproximadamente um quarto da renda é elevado, mas sua adequação depende do número de dependentes, da idade de seus integrantes e das necessidades de proteção social.
No caso brasileiro, a Previdência Social envolve aposentadorias, pensões e outros benefícios previstos em lei. Seu peso também reflete a estrutura demográfica, a informalidade do mercado de trabalho e as regras de financiamento do sistema. Não seria tecnicamente correto concluir que essa despesa é excessiva apenas por sua participação percentual. A análise exige considerar quem recebe os benefícios, quais obrigações são constitucionais e como evoluem receitas e despesas ao longo dos anos.
Alimentação e gastos da casa: R$ 2.375
Uma família com renda de R$ 10 mil, especialmente em uma grande cidade, teria de avaliar cuidadosamente se R$ 2.375 seriam suficientes para alimentação, habitação, energia, água, manutenção e outras despesas essenciais.
A Pesquisa de Orçamentos Familiares do IBGE de 2017–2018 mostra que, no conjunto dos gastos de consumo das famílias brasileiras, habitação representava 36,6%, alimentação 17,5% e transporte 18,1%. São referências históricas de composição do consumo, não preços atuais nem uma recomendação específica para famílias com renda de R$ 10 mil.
Para a União, a rubrica que inspirou essa analogia é muito mais ampla. Abrange diferentes despesas de funcionamento e políticas públicas, não apenas o equivalente à manutenção de uma residência. A comparação, portanto, serve para provocar uma pergunta: depois das obrigações financeiras e previdenciárias, os recursos disponíveis são suficientes para manter e melhorar os serviços essenciais?
Assistência à família: R$ 639
Esse valor representaria a ajuda a familiares em situação de maior vulnerabilidade.
No orçamento federal, as despesas de assistência social atendem a milhões de pessoas e incluem políticas de transferência de renda e proteção social. Sua avaliação não deve considerar apenas o volume gasto, mas também a capacidade de reduzir a pobreza, preservar condições mínimas de vida e estimular a autonomia econômica dos beneficiários.
Despesas médicas: R$ 544
Para uma família, R$ 544 poderiam custear algumas consultas, medicamentos ou parte de um plano de saúde, dependendo da composição familiar.
No orçamento público, a comparação exige cautela adicional: os valores federais destinados à saúde não representam o gasto total do Brasil nessa área. Estados e municípios também financiam o Sistema Único de Saúde. A questão relevante é saber se o financiamento disponível atende adequadamente à demanda por consultas, exames, internações, prevenção e infraestrutura hospitalar.
Escola: R$ 422
O equivalente a R$ 422 por mês seria uma quantia modesta para uma família que precisasse custear integralmente a educação privada de seus filhos. Mas a situação seria diferente se eles frequentassem escolas públicas.
Também aqui o orçamento federal representa apenas parte do financiamento nacional da educação. A avaliação de eficiência precisa levar em conta resultados de aprendizagem, permanência escolar, formação profissional, produtividade e condições da infraestrutura educacional.
Gastos para trabalhar: R$ 217
Na vida doméstica, essa verba poderia corresponder a transporte, equipamentos e outras despesas necessárias para obter renda.
No orçamento federal, a função Trabalho envolve políticas públicas específicas. Não corresponde à totalidade das despesas que permitem o funcionamento da economia ou a geração de empregos. Apesar da limitação da analogia, o item evidencia uma preocupação relevante: o país precisa direcionar recursos também às condições que favorecem produtividade e emprego.
Investimentos e melhorias: R$ 176
O alerta mais importante para a engenharia e a construção:
R$ 176 por mês
Valor equivalente, na analogia, ao destaque ilustrativo dos investimentos federais dentro de uma renda mensal de R$ 10 mil. Com apenas R$ 176 por mês, uma família teria dificuldade para realizar reformas importantes, melhorar suas instalações, adquirir equipamentos ou constituir patrimônio.
No orçamento federal, a parcela de investimentos também é pequena quando comparada às despesas correntes e financeiras. É necessário observar, porém, que os investimentos públicos brasileiros não se limitam à dotação federal destacada. Estados, municípios, empresas estatais e outros agentes também executam investimentos, e determinadas despesas com impacto sobre infraestrutura podem aparecer em outras classificações.
Ainda assim, a comparação levanta uma questão estratégica: um país com graves carências de saneamento, mobilidade urbana, habitação, logística e infraestrutura energética pode crescer sustentavelmente com capacidade tão limitada de investimento público federal? Para a engenharia e a construção, o problema não envolve apenas a execução de obras. Infraestrutura adequada reduz custos de produção, aumenta a competitividade das empresas e amplia o potencial de crescimento da economia.
4. A proposta de André Lara Resende: os juros como parte do problema fiscal
Em seu artigo, Lara Resende questiona o diagnóstico de que o ajuste fiscal depende predominantemente da contenção de despesas primárias. Seu argumento é que o elevado custo dos juros aumenta a dívida pública e cria um círculo de dificuldades: juros altos ampliam as despesas financeiras, deterioram os indicadores fiscais, pressionam expectativas e contribuem para a manutenção de taxas elevadas.
O economista propõe uma mudança coordenada de regime fiscal e monetário, com metas para um horizonte de quatro a cinco anos e participação de um Conselho Fiscal e Monetário Nacional. Como medida inicial, sugere que o Banco Central anuncie uma redução gradual da taxa Selic, ao longo de aproximadamente 12 meses, do patamar de 13,75% para algo próximo de 7,5% ao ano. A proposta também contempla medidas de coordenação fiscal e a possibilidade de utilizar reservas internacionais para mitigar movimentos cambiais excessivos.
O raciocínio é particularmente relevante em um país onde parte importante da dívida pública tem remuneração vinculada à Selic. Nesse caso, alterações na taxa básica podem afetar o custo de financiamento do governo de maneira relativamente rápida. A redução dos juros, contudo, não produziria automaticamente uma economia proporcional à queda da Selic sobre todo o estoque da dívida. O resultado dependeria da composição dos títulos, de seus vencimentos, dos prêmios de risco, da inflação e das condições de refinanciamento.
5. O que dizem economistas com base técnica?
O debate ganhou uma contribuição especialmente importante em 3 de novembro de 2026, quando o economista John H. Cochrane, pesquisador associado à Universidade Stanford e ao Hoover Institution, publicou uma análise específica da proposta brasileira.
No artigo “Fisher and Resende in Brazil”, Cochrane reconhece que a argumentação de Lara Resende tem consistência teórica e identifica corretamente o peso dos juros sobre as finanças públicas. Ele concorda que juros elevados, combinados com dívida pública expressiva, podem tornar a trajetória fiscal insustentável. Também admite que determinadas formulações macroeconômicas permitem resultados diferentes da interpretação convencional segundo a qual a redução dos juros necessariamente aceleraria a inflação.
Entretanto, sua avaliação contém ressalvas decisivas. A primeira é que reduzir a taxa básica de juros não garante, por si só, a redução duradoura do custo real de financiamento do governo. Os investidores podem exigir prêmios maiores se perceberem aumento dos riscos de inflação, desvalorização cambial ou inadimplência.
A segunda diz respeito à política fiscal: para que a estratégia funcione, o governo precisaria demonstrar compromisso crível com a sustentabilidade da dívida, inclusive preservando os ganhos decorrentes da economia de juros.
A terceira envolve a experiência histórica. Cochrane observa que políticas destinadas a manter juros artificialmente baixos, sem sustentação fiscal, apresentaram resultados problemáticos em diferentes países.
Sua conclusão não é de aprovação nem de rejeição definitiva. Ele considera a proposta intelectualmente relevante, mas defende uma combinação mais robusta de reformas fiscais, monetárias e medidas de estímulo à produtividade. Essa análise é particularmente valiosa porque vem de um dos economistas cujos trabalhos teóricos fundamentam parte do raciocínio apresentado por Lara Resende.
Existe, portanto, uma convergência importante: o custo dos juros merece papel central no debate sobre a sustentabilidade da dívida. A divergência está na capacidade de reduzi-lo de forma segura e duradoura apenas por meio de uma nova orientação da política monetária.
6. O que os gráficos permitem concluir — e o que não permitem
A leitura conjunta dos dois infográficos oferece uma perspectiva acessível do problema brasileiro. O primeiro mostra um orçamento de R$ 6,34 trilhões no qual as operações financeiras representam 49,44% do total. Essa participação, porém, é fortemente influenciada pela rolagem da dívida e não pode ser interpretada como se quase metade dos impostos fosse consumda por juros. O segundo retira essa rolagem da renda efetiva da família e reorganiza proporcionalmente as demais despesas. O resultado é uma situação em que R$ 3.032 de uma renda de R$ 10 mil ficam associados a operações financeiras, enquanto apenas R$ 176 são destacados como investimentos e melhorias.
A diferença entre esses valores chama a atenção, mas exige interpretação responsável. Nem todas as operações financeiras são juros, e a dotação de investimentos utilizada na analogia não representa todo o investimento público brasileiro. Isso não elimina a relevância da comparação. Pelo contrário: ela ajuda a formular as perguntas corretas.
O país precisa discutir quanto custa sua dívida, por que os juros reais permanecem elevados, como melhorar a eficiência das despesas primárias e de que maneira ampliar o espaço para investimentos produtivos. Também precisa reconhecer que a estrutura de gastos não pode ser avaliada apenas pelo tamanho de cada fatia. Previdência, assistência social, saúde e educação possuem funções econômicas e sociais próprias. A questão não é simplesmente reduzir essas despesas, mas assegurar que os recursos produzam resultados compatíveis com as necessidades da população.
7. O desafio para o Brasil: reduzir os juros e recuperar a capacidade de investir
Para a engenharia e a construção, as consequências desse debate são diretas.
Juros elevados encarecem financiamentos imobiliários, projetos industriais, investimentos privados e obras de infraestrutura. Ao mesmo tempo, pressionam o custo da dívida pública e restringem a margem fiscal do governo. Uma redução sustentada dos juros poderia melhorar o ambiente para novos empreendimentos, ampliar a viabilidade de concessões, favorecer investimentos industriais e reduzir o custo de capital em setores intensivos em financiamento. Mas essa redução precisa ser compatível com a estabilidade monetária e fiscal. Caso contrário, seus benefícios podem ser comprometidos por inflação, desvalorização cambial e aumento dos prêmios de risco.
A contribuição de André Lara Resende é recolocar o custo da dívida no centro do debate econômico. A contribuição crítica de John Cochrane é lembrar que a redução duradoura desses custos depende também de confiança, instituições sólidas e compromissos fiscais consistentes.
Para o Brasil, talvez a questão decisiva não seja escolher entre reduzir juros ou ajustar despesas. O desafio é construir condições para que ambos os movimentos se reforcem, permitindo que uma parcela maior dos recursos nacionais seja destinada ao crescimento e à melhoria dos serviços públicos.
A analogia familiar encerra a discussão com uma pergunta simples:
Se uma família percebe que suas obrigações financeiras limitam sua capacidade de cuidar da casa e investir no futuro, deve apenas cortar despesas essenciais ou também procurar reduzir, de maneira sustentável, o custo de suas dívidas?
No caso brasileiro, a resposta exige mais do que uma decisão isolada sobre a taxa de juros. Exige uma estratégia econômica capaz de conciliar estabilidade, responsabilidade fiscal, produtividade e investimento.
Nota metodológica da CNC
Os infográficos utilizam como referência a Lei Orçamentária Anual de 2026, especialmente a publicação Orçamento Cidadão, do Ministério do Planejamento e Orçamento.
As despesas financeiras são apresentadas conforme a classificação orçamentária, que inclui refinanciamento e outras operações. Elas não equivalem integralmente a despesas com juros.
A analogia familiar é uma simulação proporcional e didática. O refinanciamento foi excluído da base de R$ 10 mil e exibido separadamente. Os investimentos foram destacados de forma ilustrativa, combinando classificações orçamentárias distintas, e não devem ser somados novamente às funções de governo sem uma conciliação detalhada.
A avaliação da capacidade de investimento do Brasil deve considerar também estados, municípios, empresas estatais e investimentos privados.
Fontes técnicas principais:
- Ministério do Planejamento e Orçamento — Orçamento Cidadão, LOA 2026. Lei Orçamentária Anual 2026
- Câmara dos Deputados — Despesas no Orçamento de 2026. camara.leg.br
- Banco Central do Brasil — Estatísticas fiscais. bcb.gov.br
- André Lara Resende — Eu Acuso: uma proposta para eliminar os juros absurdos. andrelararesende.substack.com
- John H. Cochrane — Fisher and Resende in Brazil, 3 de novembro de 2026. by John H. Cochrane
- IBGE — Pesquisa de Orçamentos Familiares 2017–2018. Agência de Notícias










